domingo, 13 de julho de 2008


Xantipa

Aqui dorme-se bem, o colchão é macio, os lençóis alvos e perfumados. Sim, aqui dorme-se muito bem, não é como no meu pequeno e imundo barraco. Gostei dessa ilha tranqüila e silenciosa, sobretudo agora. Vou partir contrariada, com o coração aos pedaços, diria se fosse um pouco mais dramática. É duro abandonar tanto conforto, mas já é tempo. Amanhã pego o barco e vou por aí, deixo todo mundo aqui que eu estou cansada dessa gente. Obrigada pela cama, pela boa comida, pelos vinhos, pela praia, pelo sol, por tudo….Vou-me. Depois de tantos anos, digo-lhes, finalmente, adeus!


Dona Adélia Campos Guimarães, minha patroa, nem responde, os outros também não. Ninguém mais responde e nem ordena: ‘Xantipa vá buscar isso, por favor.’ ‘Xantipa, nós vamos jogar tênis, prepare um lanche para daqui a duas horas, sim?’ ‘Xantipa, vamos jantar às oito horas, prepare os camarões.’


De manhã lhes sirvo café quente, pães, sucos, limpo a mesa, o chão, troco os lençóis, lavo as toalhas, muitas toalhas que devem estar sempre limpas e cheirosas. Mas tudo isso é pretérito imperfeito, falo no presente por descuido e costume, agora estão todos lá fora, com a boca já cheia de formigas, outros estão ainda na varanda onde lhes servi o camarão bem temperado. Camarão é uma comida estranha e facilmente perecível, eu mesma detesto camarões, sou alérgica, mas eles gostam, digo, gostavam. O Valter não deve ter comido bastante e me deu trabalho. Droga! Esse imbecil bebia tanto que não se importava em comer. Eu devia ter temperado as bebidas também. Da porta vi quando os outros começaram a sentir tonturas, alguns não tiveram a decência de procurar um canto escondido para vomitar e, vendo aquele espetáculo, vomitei também. Não suporto ver gente vomitando, tenho o estômago fraco, ele dá umas reviradas e, como num ato de solidariedade, vomito junto. Valter, que já estava bêbado, não entendia direito aquelas cenas. Alguns correram para o mar procurando, decerto, se refrescar, então, percebendo que não se tratava de uma brincadeira, o beberrão quis entrar para telefonar, eu empurrei a porta e me tranquei aqui dentro. Ele deu murros, pontapés e depois tentou as outras entradas, mas não tinha muita força, desistiu e tentou chegar ao barco, logo o alcancei e dei-lhe uma cacetada na cabeça. Merda, com essa eu não contava, mas tive que fazer, com o barco ele podia, rapidamente, avisar um dos vizinhos. Foi chato isso, pois uma coisa é envenenar comidas, outra é sair distribuindo cacetadas em cabeça de bêbado. Para o envenamento eu tinha me preparado com muita antecedência, tinha estudado e, além disso, era colocar o veneno e esperar agir, já as cacetadas foram todas improvisadas, uma violência. Foi chato, muito chato, mas está feito.


Agora é apagar o que puder dos meus traços, juntar as minhas poucas roupas e desaparecer. Vou amanhã bem cedo antes que os curiosos apareçam por aqui, o telefone tem tocado cada vez mais, os recados preocupados se acumulam na secretária eletrônica. É tempo.


Bruxelas 11/10/2000