domingo, 24 de agosto de 2008

Mosaico de horas

Eu e essa estrada, faz anos que é assim, tantos que ela já é quase uma pessoa. Uma pessoa, é isso, a gente vai rodando... rodando.... nessa solidão e começa a racionar besteiras, uma estrada vira uma pessoa, já se ouviu de tudo, quer dizer, na verdade ninguém ouviu porque estou matutando sozinho. Mas, se tivesse alguém aqui eu ia mostrar o tanto que conheço bem esse caminho, daqui a uns quinze ou vinte minutos vou passar por aquela árvore grande pendendo pra esquerda, uma de galhos engraçados, parece que quer abraçar, vamos ver, vou marcar no relógio, tivesse alguém aqui ia ver como estou certo. Bom, ia ver ia ver e de quê isso ia servir? De nada. Uma inutilidade saber que em tal lugar dessa estrada tem isso ou aquilo. Algumas vezes necessitamos também dessas coisinhas inúteis, essa que é a verdade, ajuda ao menos a pontuar minha solidão. É que tenho que manter a cabeça ocupada, essa vida de estrada é muito das esquisitas se a gente analisar, estrada, estrada e mais estrada, ninguém imagina o que é isso, nem eu imaginava que um dia ia ser assim, que a solidão pudesse ser tão vasta, que ia ter que treinar a minha própria cabeça para não ficar doido, vou pensando numas coisas e tentando não pensar noutras, às vezes pulo sem mais nem menos de um assunto pra outro, mudo completamente de rumo, de propósito. Lá está a tal da árvore, vamos ver, dezessete minutos contados, nem quinze, nem vinte, mas dezessete que está no meio. Olha lá, dá até vontade de abanar a mão pra ela. Veja o que a solidão faz com um homem, estrada vira gente, árvore vira gente...Um dia escutei no rádio uma história estranha, era sobre as sereias, essas também foram uma invenção da solidão do homem. Ficavam os marinheiros a marear por longos meses, anos, quem sabe, naquela solidão absoluta, quer dizer, só não era mais absoluta que a minha nesse caminhão porque lá eles tinham outros homens pra conversar, mas sempre os mesmos...não sei, em todo caso, mulher é que não viam, daí a imaginação desses coitados transformou um peixe - um peixe que consegue sair da água por uns instantes – na mais bela criatura fêmea que havia, fêmea, mas não mulher, ou mulher só pela metade. Solidão é isso, invenção. Estrada, minha estrada, até quando seremos nós dois?

De noite leio umas pagininhas do bang-bang, escuto as notícias no rádio e durmo, umas vezes o sono vem rápido, outras demora, quando demora é o diabo, esticar essa solidão diurna é pagar os pecados que a gente nem tem tempo de cometer. Na manhã seguinte, a estrada está lá esperando a minha marca, é quase infinitamente assim, um dia não há de ser mais porque até o que parece infinito tem que ter um fim. É.

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imagem:Ichi en so, shingai Tanaka

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Les escaliers du Montmartre, Paris.
Brassai

Óleo sobre tela

....e como era aquele tempo em que as pessoas não tinham fotos amareladas para ver ? aquela chinesa ali, tão grávida, que parou para descansar [o marido americano segura a bolsa enquanto isso. bolsa de mulher] tem em casa uma foto antiga da mãe na China. da sua boca sairá uma filha que ela quererá perfeita e, quem sabe, cristã. mas aquele outro casal que passa, ele chinês, ela chinesa, observa sem pudor aquela que ali descansa o seu ventre já quase maduro e o marido que segura ternamente a bolsa feminina. A bolsa outra, dia desses, rebentará e uma menina muito linda e mista verá a luz. mas o olhar do outro casal lançou uma sombra na boca da grávida. a boca mensageira, corrosiva ou libertária, a boca que recriará uma avó chinesa, uma língua chinesa e os parques da China tão mais vastos e verdes que este americano e plástico. a graça imperfeita da China parecerá tão distante e a foto da avó desdentada e camponesa será uma irrealidade. a mãe entoará berceuses em chinês. deve existir berceuses em chinês. sim.

15/08/2004

domingo, 27 de julho de 2008

The artist's garden at Giverny, Claude Monet
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Imprudência

Separei, sempre, o joio do trigo e, muitas vezes, fiquei com o joio. Não foi a sorte ou o azar, foi a imprudência. Eu podia ter escolhido o Luís, mas não, fiquei com o Lazinho. Imprudência! Está vendo minha cara quebrada? Significa que fiquei com o joio, entendeu, doutor? Uma lástima. Claro que não foi a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira. Olha também aqui na minha coxa, viu? Estragar umas coxas dessas, doutor? Modéstia à parte...Um dia o desgraçado quase me arrebentou a cabeça, está aí escrito, dei queixa. A imprudência me fez voltar. Daí, doutor, respondendo à sua pergunta, foram sete facadas de raiva, de dor, de medo. Imprudência pura. Devia ter dado um tiro.

O bife

Natal é sempre a mesma merda, entra ano sai ano, tudo igual. E foi num natal, justamente, que eu abocanhei aquele bife do meu pai. Antes, isso era regalia dele, para nós, só a gordura que sobrava e mamãe misturava numas batatinhas.

Lá se vão tantos anos, mas ainda lembro da cena: meu pai sentado com o prato na mão, preparando para meter os dentes no bife, nós, as crianças, brincando pelo chão e mamãe lavando vasilhas, foi então que o homem entrou, da porta mesmo, sem dizer bom dia, deu os tiros no meu pai que mal teve tempo de se assustar. Eu só tinha uma idéia na cabeça, o bife. Corri, peguei aquele pedaço suculento e comi num piscar de olhos. Os outros choravam apavorados. Só dei por mim depois de ter terminado de engolir. Ainda vi mamãe enxugar as mãos na roupa e sair pelo portão, tomar a rua e caminhar, caminhar, sem olhar para trás, nunca mais voltou. Fomos todos para o orfanato e agora, velha, estou aqui nessa casa de velhos. Hoje me aparece esse aí distribuindo balinhas, rindo e soltando uns ho ho ho fingidos. Quem precisa dele e desses bombons nessa velhice besta?

O que eu queria mesmo era poder comer de novo um bife igual àquele.

Lolita - Capa

domingo, 13 de julho de 2008


Xantipa

Aqui dorme-se bem, o colchão é macio, os lençóis alvos e perfumados. Sim, aqui dorme-se muito bem, não é como no meu pequeno e imundo barraco. Gostei dessa ilha tranqüila e silenciosa, sobretudo agora. Vou partir contrariada, com o coração aos pedaços, diria se fosse um pouco mais dramática. É duro abandonar tanto conforto, mas já é tempo. Amanhã pego o barco e vou por aí, deixo todo mundo aqui que eu estou cansada dessa gente. Obrigada pela cama, pela boa comida, pelos vinhos, pela praia, pelo sol, por tudo….Vou-me. Depois de tantos anos, digo-lhes, finalmente, adeus!


Dona Adélia Campos Guimarães, minha patroa, nem responde, os outros também não. Ninguém mais responde e nem ordena: ‘Xantipa vá buscar isso, por favor.’ ‘Xantipa, nós vamos jogar tênis, prepare um lanche para daqui a duas horas, sim?’ ‘Xantipa, vamos jantar às oito horas, prepare os camarões.’


De manhã lhes sirvo café quente, pães, sucos, limpo a mesa, o chão, troco os lençóis, lavo as toalhas, muitas toalhas que devem estar sempre limpas e cheirosas. Mas tudo isso é pretérito imperfeito, falo no presente por descuido e costume, agora estão todos lá fora, com a boca já cheia de formigas, outros estão ainda na varanda onde lhes servi o camarão bem temperado. Camarão é uma comida estranha e facilmente perecível, eu mesma detesto camarões, sou alérgica, mas eles gostam, digo, gostavam. O Valter não deve ter comido bastante e me deu trabalho. Droga! Esse imbecil bebia tanto que não se importava em comer. Eu devia ter temperado as bebidas também. Da porta vi quando os outros começaram a sentir tonturas, alguns não tiveram a decência de procurar um canto escondido para vomitar e, vendo aquele espetáculo, vomitei também. Não suporto ver gente vomitando, tenho o estômago fraco, ele dá umas reviradas e, como num ato de solidariedade, vomito junto. Valter, que já estava bêbado, não entendia direito aquelas cenas. Alguns correram para o mar procurando, decerto, se refrescar, então, percebendo que não se tratava de uma brincadeira, o beberrão quis entrar para telefonar, eu empurrei a porta e me tranquei aqui dentro. Ele deu murros, pontapés e depois tentou as outras entradas, mas não tinha muita força, desistiu e tentou chegar ao barco, logo o alcancei e dei-lhe uma cacetada na cabeça. Merda, com essa eu não contava, mas tive que fazer, com o barco ele podia, rapidamente, avisar um dos vizinhos. Foi chato isso, pois uma coisa é envenenar comidas, outra é sair distribuindo cacetadas em cabeça de bêbado. Para o envenamento eu tinha me preparado com muita antecedência, tinha estudado e, além disso, era colocar o veneno e esperar agir, já as cacetadas foram todas improvisadas, uma violência. Foi chato, muito chato, mas está feito.


Agora é apagar o que puder dos meus traços, juntar as minhas poucas roupas e desaparecer. Vou amanhã bem cedo antes que os curiosos apareçam por aqui, o telefone tem tocado cada vez mais, os recados preocupados se acumulam na secretária eletrônica. É tempo.


Bruxelas 11/10/2000

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust
1871 - 1922
A vida nem sempre é rosa

Eis-me aqui, dirigindo carrinho de supermercado, e ainda por cima sujo. Ai, Deus! Cinquenta e dois anos, peitos em cima, bunda em cima, umas rugas aqui e ali no rosto, é verdade, sobretudo agora que não tenho mais dinheiro para o botox e para aqueles cremes milagrosos. Milagrosos, desde que se disponha da bufunfa, claro, claro! Disso não disponho mais. Filho de uma puta, me abandonar assim, depois de tantos anos. Dessa vida nova, uma das coisas que mais detesto é ter que vir a supermercado, ainda mais esse aqui cheio de pobre, ó desgraça, olha aquela ali com salto de um metro às três da tarde...e saia curta! Tenha dó, que falta de classe. É o que chamo de falta de classe, estampar assim a piranhice. Cruzes! Olhe bem as palavras que você anda usando, Leda. Deus-me-livre, não é porque você agora é pobre que tem que vir com essas. Mas, enfim, infelizmente aquilo ali não tem outro nome, é piranhice mesmo, e das boas, essas sandálias baratas, tá na cara que são baratas, feias e altas combinadas com mini-saia. Enfim, o que não deve ser barato nesse supermercado? Ai, coitada, dignas de pena essas moçoilas de ar idiota. Olha só como anda! Dá até vontade de ir lá explicar “Querida, se você não sabe andar com esses saltos, coloque uns mais baixos, você pensa que aquela modelo que você vê na revista sai por aí a fazer compras de salto? Não, não, a elegância consiste em saber a hora disso e daquilo.” Mas quem sou eu para dar conselhos, cinquenta e dois anos de elegância e aqui, largada com uma mesada ridícula. Isso é outra coisa que não entendo, essa mudança dos tempos, antigamente eu via as mulheres se separarem felizes, com uma bela duma pensão, indo curtir a vida numa boa com os namorados....Agora, quando é a minha vez, me sobra essa mixaria. Sinceramente, os tais mistérios! Bom, o mistério maior é que aquele salafrário conseguiu esconder boa parte do dinheiro dele e o juiz preferiu acreditar. Homens! Mas que merda, não acho nada nesse supermercado. E o pior de tudo, o pior, não fui trocada por uma dessas beldades de vinte ou trinta anos, não, nem fui trocada, simplesmente isso, cansou-se de mim, cansou-se, que eu não levasse a mal. Não disse isso nessas palavras, classe é algo que Frederico tinha de sobra, tinha não, tem né, ele não morreu. Agora sei que está tranquilo e calmo percorrendo a Europa com um amigo, inclusive as más línguas dizem....Eu não quero nem saber, estou fora desse jogo mesmo.

Outro mistério desse universo pobre: porque razão alguns têm que vir ao supermercado com toda a prole? Juntam os pirralhos todos e trazem ao supermercado como se aqui fosse parque de diversões. Ai, que saudade da Dona Zuleica viu, com ela eu não precisava nem me lembrar que supermercado existia, escolhia tudo do bom e do melhor, um verdadeiro chefe. Claro, ela está lá com o Frederico, óbvio, primeiro porque nunca gostou mesmo de mim, me tolerava, isso sim e quando eu viajava, eu bem sei, o Frederico podia transformar a casa em clube gls. Sim, no fundo as más línguas têm razão, eu nunca quis dar ouvidos antes porque me convinha, afinal que marido empurra a esposa para férias de um mês, dois meses até, na Europa sem nem perguntar com quem está indo? Pois é, agora aqui estou dirigindo esse carrinho de supermercado. Que merda! Amantes eu tive de sobra, hoje, quando pego a agenda e ouso telefonar para algum deles, só escuto desculpas das mais esfarrapadas, cada um mais ocupado que o outro, viraram homens de negócio, artistas.....o caramba, até parece! É como se eu tivesse uma doença contagiosa. E tenho mesmo, essa doença se chama pobreza, foram-se as viagens, os bons restaurantes. Frederico-filho-da-puta! Quem diria que aquele homem tranqüilo, elegante e bonito podia puxar assim o meu tapete. O juiz diz que o apartamento, o carro e a mesada que ele me deixou são suficientes. Suficientes, senhor juiz? Eu queria ver se o senhor fosse uma mulher de cinquenta anos, aí a gente podia conversar de igual pra igual. Agora uma coisa eu juro, nesse supermercado chinfrim eu não piso nunca mais, nem que eu tenha que começar a vender minhas jóias. Tudo tem limite nessa vida. Ai, Zuleica, traidora! Sim, fique aí com o seu Frederico, o galante, eu, a fútil me cuido só. Ah, não, nessa fila eu não entro, basta, chega dessas economias estúpidas, não quero saber de futuro, vou arrumar uma Zuleica pra mim.

Junho 2005

Não creio em bruxas, mas...

Lorena, com seu rosto de uma brancura alabastrina, nariz minúsculo e olhos que lembravam dois lagos plácidos comoveu-me à primeira mirada. Sou do tempo em que, para se descrever uma mulher, não temíamos os clichês. Casamo-nos depois de muito verbo, muitos presentes, muita amolação dos meus filhos que não queriam ver a herança escorrendo para mãos alheias. Um dia chego em casa ansioso por beijar minha doce Lorena e a encontro com Letícia, bebendo e rindo. ‘Minha melhor amiga’, disse ao apresentá-la. Semanas seguidas, ao chegar, tinha que fazer face àquela irritante presença. Insisti com Lorena para que fizéssemos uma viagem, ela recusou, não só recusou como explicou que ela e Letícia iam viajar juntas para uma convenção de bruxas, sim, que eu acreditasse, eram bruxas, eu podia esquecer tudo aquilo que conhecia sobre velhas de dentes pretos e nariz cheio de verrugas. Fez até uns truquezinhos para provar. Esperneei, aquilo já era abuso, ela ameaçou anular o casamento e eu cedi porque, apesar de todas as estranhezas, não queria arriscar-me a perdê-la. Por mais de um mês estiveram a viajar, meus filhos aproveitaram o tempo para aporrinhar-me, tratando-me como um velho gagá que tinha abandonado por completo o bom senso. Mas não era o meu senso que os preocupava.

Chegaram as bruxas, sim, chegaram, no plural. Encontrei-as dormindo na sala, livros jogados aqui e ali. ‘E então?’ Resmunguei alto com o claro intuito de acordá-las. Abriram os olhos se espreguiçando como duas gatas, disseram que estavam estudando bruxarias e caíram no sono....Olhei para as capas: Anaïs Nin, Virginia Woolf? Nunca me ocorreu que tivessem sido bruxas. Riram a mais não poder da minha observação e nem se deram o trabalho de explicar a bizarrice. Maldito o dia em que sucumbi, em que olhei para aqueles olhos, estava mesmo senil. Suspirei desanimado e sentei-me no sofá na frente delas. Comovidas pela minha resignação, vieram as duas, sentaram-se cada uma de um lado, passaram as mãos na minha cabeça e perguntaram, com uma doçura que me espantou, se eu estava bem e se desculparam pela risada sem propósito. Vocês são mesmo bruxas? Perguntei. Somos umas bruxinhas amadoras. Foi Letícia que respondeu, com uma voz brincalhona. Olhei para ela e só então percebi como era bonito o seu sorriso. Você vai morar aqui, Letícia? É um convite? Foi sua resposta. Era certo que eu estava perdendo a cabeça. Correu para a cozinha dizendo que ia preparar um banquete para comemorarmos, e preparou mesmo, fazia tempo que eu não comia e bebia tão bem. Preparam ainda meu banho, minha cama, contaram-me histórias até eu dormir, mas, quando acordei, não era em minha cama que Lorena estava. Levantei cedo e lá vieram as duas dar-me bom dia com beijinhos de filhas comportadas, agradecendo por eu ter ‘deixado’ Letícia morar conosco.

Agora nossos dias correm tranqüilos, adequei-me a esse estilo. É faltar uma delas em casa e já fico confuso.

Bruxas? Não acredito.

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imagem: Enigmatique, Keith Mallet

terça-feira, 8 de julho de 2008

Saint-Exupery
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terça-feira, 1 de julho de 2008

Minas Gerais - Sítio

segunda-feira, 30 de junho de 2008


Malásia, Kuala Lumpur.
Festival em Batu Caves
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Leila S.

domingo, 29 de junho de 2008

Le baiser de l'hotel de Ville, Robert Doisneau.
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O canto

“Fear no more the heat o’ the sun

Nor the furious winter’s rages.”

Shakespeare

Londres. Uma mulher canta uma música antiga. Cantava, naquela mesma calçada, em frente à estação Regents Park, desde 1923. Um canto que celebrava a vida e Laura só conseguia pensar na morte. Aquela língua não era a sua, mas havia uma tal beleza na voz e nas palavras. Como podia estar ali por tanto tempo? Laura tinha decidido que naquele dia ia fazer pães de queijo. A mãe explicara tudo por telefone. Peter era tão britânico, até na forma de comer, não ia gostar, tinha certeza, mas ia experimentar e ia dizer “Oh, darling!” Peter era tão britânico, mais que isso, era tão londrino, suportava quinze dias fora de Londres, não mais. O céu de Londres era tão diferente do dela. Como é que duas pessoas estranhas decidem viver juntas? Em que momento? Irracional e humano. Tinha saído para comprar ovos e polvilho, aquela sacola agora a incomodava. Peter nunca ia gostar dos seus pães de queijo, ainda que ela os fizesse como a sua mãe. Tinha graça preparar tudo aquilo só para ela? Ia preparar, tinha tomado esta decisão pela manhã, durante a noite, aliás. Tinha dormido pouco, muito pouco. Coloca a sacola com os ovos no chão, enfia as mãos nos bolsos do casaco para aquecê-las enquanto ouve a velha e o seu canto que celebra a vida, então um menino passa de patins, esbarra nos ovos, vira-se e, sem parar, diz: “Sorry!” Laura abre a sacola, enojada, vê uma gosma formada por algum ovo quebrado. Quantos? Ainda tinha o suficiente para a sua receita, não precisava de mais que três. Sente as mãos geladas, mete-as de novo no bolso e volta a olhar para a mulher. A mãe de Peter, tampouco, ia gostar dos pães de queijo, era um saco ver aquelas caras educadas, mal engolindo a comida, com um prazer fingido. Propositadamente fingido. Coisas que ela, Laura, adorava. E o respeito que tinham pela família real!? Tratar aqueles bonecos com tanto apreço, palhaçada.... Enfim, maldade julgá-los somente por este ângulo. O que tinha ela hoje? Laura! Laura! Acorda. Essa mulher, daqui a milênios, vai estar cantando esta mesma canção. Londres era tão fria em janeiro. Quantos janeiros já tinha passado ali?

Não era verdade que pensava na morte, como podia pensar na morte carregando a vida em seu próprio ventre? A continuação dela e de Peter, e da mãe de Peter que defendia a monarquia e do pai de Peter que não vivia mais e de sua mãe que tentava lhe ensinar, de longe, a fazer pães de queijo e que depois chorava ao telefone. ‘Minha filhinha!’ Bobagem, não era exatamente na morte que estivera pensando. Mulher nenhuma.....Todo mundo, garantiu o médico, tinha seus momentos e nesse estado, então, era mais do que perdoável. Perdoável? O médico tinha dito isso? Perdoável? Ou foi Peter? Ela tinha que ser perdoada?

Sente, no fundo do bolso, uma moeda, joga-a para a mulher que cantava, e ela move os olhos. Agradecidos? Um discreto tilintar. Laura pega a sacola, entra na estação de metrô e caminha pensando em Peter. Peter que já devia estar esperando em casa para escolherem juntos a cor do quarto do bebê.

Leila Silva Terlinchamp
publicado na Revista Cult.

Quill Pen and Ink - Dave Ryan
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O blues de Flora

Escrevi a Flora falando da imensidão do mundo e das constelações que cabem nele, acrescentei que nós, desmesurados e efêmeros, também estamos dentro dele. Queria convencê-la da beleza das estrelas e de seu pertencer.

Flora em nada acreditava e ainda debochou da minha insensatez. Queria Canterburry com suas igrejas e contos, queria Bagdá, Alexandria e Pérsia. Queria mais que o poeta.

Foi por isso que abriu a janela e mergulhou na vastidão.

A japonesa

Comprei, em um museu de Washington D.C, uma gravura representando uma japonesa de cabeleira negra, rosto redondo, sobrancelhas finas, a boca, um pontinho vermelho e delicado, o nariz é um traço quase invisível, da mesma cor do fundo e apenas mais escuro que o rosto, a mão também pequena, de dedos finíssimos, os três do meio dobrados, levantando uma parte da roupa, o ‘mindinho’ livre. A outra mão está completamente escondida na manga do kimono. Esta japonesa vem me acompanhando há algum tempo e, por força de tanta viagem e maltrato terminou por ficar meio amassada. De vez em quando eu desenrolava o cartucho e a contemplava, mas só agora tive tempo e vontade para mandar emoldurá-la. ‘Uma moldura simples e não muito cara.’ Pedi pensando que não valeria a pena investir já que a gravura apresentava imperfeições.

Uma vez emoldurada percebi que os amassados se tornaram quase imperceptíveis, mas não me arrependi de ter optado por aquele acabamento simples, caía bem, a moldura não roubava a atenção. Pude apreciar melhor a minha japonesa, congelada naquele movimento lento, meio de lado, a boquinha suave de um pontinho só...Ela me fez pensar em outra japonesa, aquela pintada por Van Gogh, de um certo modo parecida com esta só que virada para a esquerda e muito mais colorida, os cabelos num arranjo exagerado e os olhos parecem sorrir de um jeito meio cínico, como se estivesse a zombar da gente ou como se tivesse feito uma travessura. Em tudo isso, muito diferente desta que tenho aqui.

Pendurei a gravura no meu quarto, à noite estava a contemplar esta delicadeza, aqueles olhinhos que não sabemos para onde olham, os pezinhos que não se deixam nem adivinhar, os tecidos finos cobrem tudo, que trabalhe a imaginação! Levanto-me da cama e me aproximo da gravura para ler as referências. Descubro, com espanto, que a minha linda japonesa é, na verdade, um homem:

‘Actor portraying a woman, Japanese painting, Edo (Kambun Period 1661- 73)Ukiyoe School.

Volto para a cama meio magoada com a minha japonesa por ter se dissimulado durante tdo esse tempo, depois percebo, claro, que eu é que não quis ver a realidade que estava estampada ali...Enfim, sem razão, mas ainda assim meio contrariada, durmo.

Pela manhã o primeiro gesto, erguer a mão e alcançar aquilo que parece uma parte de mim, os óculos, com eles no rosto contemplo, uma vez mais, a graciosa e dissimulada japonesa. Sonolenta reflito, ou melhor, repito, ‘Há mais mistérios entre o céu e a terra....’e decido que isso é bom, ‘Fiat lux’. Abro a janela e vislumbro o novo dia.

E que me importa o sexo oculto sob aquele kimono?


Andanças

Um dia vi Veneza,

Vi Paris e Istambul.

Em Istambul queriam me vender tapetes mas disse ‘No, thank you’ e fui ver a mesquita Azul. Depois tomei uns porres e fui ao Hamam, onde mulheres com os peitos grandes à mostra me banharam, me massagearam enquanto narravam umas às outras as peripécias do dia. Isso é o que eu supunha, visto que de turco, nada entendia.

Em Veneza comprei um chapéu barato que levei para Cingapura.

Cingapura eu vi, revi e vivi e lá deixei o meu chapéu veneziano.

Em Cingapura chovia.

Todo dia.

Minha amiga japonesa nunca se esquecia da sombrinha.

Tão precavida, essa Misako.

E eu, tão descuidada, tomava muitos pingos e sofria de sinusite. Uma chinesa quis me tratar com acunpuntura dizendo, com muita honestidade : ‘Vai doer !’. Covarde, fui embora. Já me bastava a dor da sinusite.

Fui a Roma e não vi o Papa, fui ao México e não vi Cancun.

Na cidade do México, o motorista de táxi me fez escutar Nélson Ned, ´um grande brasileiro.` Explicou-me e levou-nos à casa de Dolores Del Rio. Frida também estava lá.

Nunca vi Cusco, nem Bagdá

Nem Jerusalém, nem Calcutá.

Mas tempo haverá.
Que o Senhor vos acompanhe

Tio Pedrinho tomou um copo de água, caminhou devagar até o quarto, rezou e foi dormir. Lá pelas tantas escutou um barulho, levantou-se de um pulo, pegou a espingarda e apontou para o sujeito “Que é que cê tá querendo aqui, ô nortistinho?”, perguntou com voz determinada, tentando disfarçar o medo. Ninguém respondeu. Ele ajeitou os óculos e percebeu que o ‘nortistinho’ era a sua própria imagem refletida no espelho do guarda-roupa. Riu de si mesmo, largou a espingarda num canto e foi tentar achar o sono outra vez porque era sábado, e domingo de manhã era dia de ajudar o padre a celebrar a missa. Rezou mais uma vez para ver se o sono voltava. Com essa história do nortistinho tinha perdido a vontade de dormir. Levou um belo susto. Também, todo mundo só fala desse Orlando Sabino e é nisso que dá, a gente começa a dormir e acorda assustado, vendo coisas, pensava ele. Orlando Sabino era o bandido mais temido desses dias. Ele já tinha matado com grandes requintes umas vinte pessoas, ou cinquenta ou cem…os números e os fatos variavam dependendo do contador e do jornal. Enfim, tirou os óculos, colocou-os à mão no banquinho ao lado da cama e dormiu.

De manhã vestiu-se elegantemente, pôs o chapéu e caminhou devagar até a igreja. Lembrou-se do susto durante a noite. Já tinha esquecido completamente. Riu de novo de si mesmo. Aquilo foi engraçado. E ele chamando a si mesmo de nortistinho! Era muito engraçado. Se não estivesse na rua ia rir de verdade mas ali, se passassem por ele iam pensar que estava louco. Lembrou-se da mulher chata e feia que deixara em casa. Nem se desejaram bom dia, tomou o café que ela tinha preparado e foi tudo. Ela era velha agora mas já era feia e chata quando jovem. Casou-se com ela meio assim de susto. Não pensou direito. Analisava. Que pena que não conhecera a irmã dela melhor antes do casamento. Bom, agora já estava feito. Já estava feito e já tinha muito tempo, muitos filhos, muitos netos. Não havia muito sentido em pensar nisso e não era culpa dele se não teve tempo de decidir direito antes de casar-se com a megera. E era culpa dele se a irmã dela ficava lá na casa dele tentando? Não era fácil ter aquela mulher feia e chata com uma irmã tão boazinha e fácil. Um dia não resistiu e os dois pecaram. Depois da primeira vez foi fácil fazer novo e de novo até que a cunhada ficou grávida e, apesar de todos os esforços, não teve como abafar o escândalo. Depois disso cada um foi para o seu canto. Ele foi enfrentar a esposa e a outra virou mulher da vida. Mais ou menos mulher da vida, vivia com um, depois com outro. O tempo ajeita tudo. Analisava.

Assim, sem se dar conta chegou à praça, cumprimentou o farmacêutico que estava sentado no banco em frente à farmácia. Atravessou a rua, andou mais um quarteirão. Do outro lado da rua viu o marido da sua neta e cumprimentou-o um pouco envergonhado lembrando-se do acidente com a espingarda. Tio Pedrinho estava de carona com neto e levava a espingarda carregada entre os joelhos, apontada para cima. Quando o carro passou por uma estrada esburacada, chacoalhando muito a espingarda disparou e fez um furo no teto do carro. Não sabendo o que dizer, tio Pedrinho disse “Ainda bem que não pegou na lamprinha”. Ele era engraçado, tio Pedrinho. O meu primo, entretanto, não achou muito engraçado o buraco no seu carro. Ficou danado de raiva. Ainda assim, atravessou a rua e veio pedir a benção e tio Pedrinho respondeu, muito digno “Deus te abençoe, meu filho. Onde é que você está indo?”Ele estava indo para a fazenda. Nunca ia à missa.

Chegou à igreja, tirou o chapéu, entrou e foi andando até o cômodo detrás do altar, lá onde o padre se vestia e onde guardavam o cálice, o vinho e as hóstias. O padre já estava se arrumando. Ele não vestia batina no dia a dia, só para celebrar a missa e quando ele erguia as mãos consagrando a hóstia a gente podia ver a barra das calças dele. Aquela barra da calça destoava do resto, não combinava com o espetáculo. Tudo era muito bonito mas aquela bainha aparecendo! Era um desmazelo da parte do padre e parecia acordar a gente para a realidade. E a gente não esta ali para isso. Estávamos ali para ver o padre de branco, a hóstia branca, o altar forrado de branco com umas flores aqui e ali, as três irmãs na primeira fila e o tio Pedrinho ajudando o padre. Daí a gente olhava para baixo e via a bainha marron do padre. Ah, não! Nunca me queixei, entretanto, senão ainda levava uns cascudos da minha avó que era irmã do tio Pedrinho. “E porque é que você está olhando para os pés do padre enquanto deveria estar olhando para a hóstia que ele está consagrando?” Eu já sabia disso. Eu era criança mas não era boba, sabia que quanto menos falasse, melhor. Era assim a minha infância nesta grande família e nesta pequena cidade.

Com as palmas das mãos para cima, todo mundo rezava “Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino…..” Depois as irmãs entoavam o coro “Eu sou o caminho, a verdade e a vida….” E todos cantavam desafinadamente. No final o padre dizia “Vão em paz, que o Senhor vos acompanhe”. Então todo mundo ia saindo, cumprimentando todo mundo. Tio Pedrinho saía também. Todos discutiam por uns minutos na frente da igreja até que sentiam calor ou fome e cada um voltava para as suas casas para viver o domingo.


Marilyn Monroe, Eve Arnold
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