Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens

domingo, 23 de novembro de 2008

In pace requiescat!

A preparação da mesa durara quase uma hora. É muito tempo, mas foi bem executada, nada fora do lugar, talheres brilhando e milimetricamente dispostos. Eu estava contente com Stephen. Bastava respeitar o seu tempo, todo mundo tem seu tempo, é natural que Stephen tenha o dele. Infelizmente Alice não pensava assim e vivia a reclamar e a sacudir o relógio. Não apreciava nada. Veja este quadro, Alice – disse, tentando chamar sua atenção para algo que não fosse espelho ou relógio. Eu já disse que não vejo nada neste quadro, é horrível, por mim já teríamos trocado isso. Sim, e teríamos colocado mais uma foto dela no lugar, decerto.

Minha devota esposa, todo domingo estava na igreja, primeira fila, cada semana com um vestido novo. O padre não sabia da missa um terço, eu conhecia. Um dia saiu da igreja de olhos inchados, disse que a confissão a fizera chorar. Duvido que de sua boquinha vermelha tenha saído a coleção de chifres com que me presenteou durante o nosso cruzeiro. Não, o padre só ouvia os pecadilhos de moça, ou melhor, da jovem Alice que sofria nas mãos de um marido caprichoso. Eu podia até ver os seus beicinhos tremendo na frente do padreco.

Não suporto esse Stephen, é muito estranho, você devia substituí-lo. Essa era a última da minha Alice, não parava de me encher. Substituir Stephen? Never ever, eu sempre quis um mordomo inglês. Nem inglês ele é, é irlandês. Respondeu a atrevida. Fulminei por dentro, mas por fora parecia um mestre zen. Ele tem um ar sorumbático. Sorumbático? Gargalhei. Minha querida agora anda lendo dicionários ou está aperfeiçoando com o padreco? Saiu batendo os saltos na madeira do assoalho e fingindo indignação. Na semana passada tinha me chamado de mentiroso por conta do quadro que ela quer substituir, eu disse que ele pertencia à minha família há muitas gerações, que tinha vindo num navio, quando minha avó decidira se aventurar por essas terras. Que exagero, disse ela, você vive exagerando essas histórias de família. Eu respondi, Alice, eu já te disse que não sou mitômano. Os olhos rebocados se arregalaram. Eu tinha me esquecido com quem estava falando. Não estou exagerando, Alice, não é mentira, esse quadro é importante para a família, mas acho que é muito difícil fazer você entender isso.

Pedi a Stephen que trouxesse meu casaco, eu ia sair. Stephen, terminou a leitura de The Cask of Amontillado? Perguntei enquanto me vestia. Sim, senhor – disse Stephen. Entendeu tudo? Preparou a adega? Entendi sim, senhor. Sempre gostei de Poe. Sim, Poe é excelente leitura. Muito instrutivo. Então eu já vou, Stephen, será hoje, não perca tempo.

De manhã meu café estava servido do mesmo jeito de sempre. Mesa posta para uma pessoa.

Bom dia, Stephen? Correu tudo como previsto? In pace requiescat! Respondeu. Eu vou sair e vou organizar a viagem, vamos passar uns meses na Europa. Antes vou verificar a parede da adega. Não precisa, Sir. Ficou perfeito, eu lhe garanto. Ninguém saberá que existe outro cômodo depois dela. Respondeu, seguro, Stephen. Precisamos de umas férias, Stephen. Disse-lhe e ele respondeu, sem se mover, yes, Sir, com efeito, preciso mesmo rever os verdes campos da Irlanda.

Leila S.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Os trilhos

Quando cheguei à rodoviária de B.H. lá estava ele me esperando e fumando um cigarro. Ansioso, talvez. Aplicou-me um beijo na boca, pegou a minha mala e conduziu-me até o fusca emprestado. Esperava que eu não estivesse cansada, disse, pois os amigos - que eu ainda não conhecia - estavam esperando no bar. Eu tinha viajado de ônibus por mais de sete horas mas, de fato, não me sentia cansada. Não se cansa fácil aos dezenove anos.

Sempre detestei o gosto da cerveja porém, na época, gostava das conversas de bar e tolerava as chacotas dirigidas aos meus sucos de fruta. Lá estava um tipo meio hippie que estudava e tentava propagar as belezas do Esperanto. Escutava interessada, me interessava por tudo e por todos.

Tarde da noite fomos para casa, ou melhor, para o apartamento da mãe dele. Era lá que ele estava morando. Ao chegarmos ele colocou a mala sobre o tapete limpinho da sala e beijou-me com muito entusiasmo e em muitos lugares. Depois mostrou-me o quarto que sua mãe arranjara para mim e foi dormir no seu, não sem antes beijar-me mais uma vez e dizer-me que era importante que eu colocasse ordem na minha vida, sexual inclusive, que um dia ele seria um advogado bem sucedido e poderíamos ir juntos recomeçar a vida em algum lugar pouco provável, Tocantins, por exemplo. Para isso eu deveria resolver, eu deveria vir vê-lo com mais frequência, eu deveria evitar certas companhias, eu deveria……Boa noite!

No dia seguinte visitamos livrarias, bares, restaurantes, andamos por vielas e Belo Horizonte era fresca nesses dias sem congresso, sem horas, sem professores, sem palestras chatas…..Pela primeira vez eu estava livre em B.H e não ia permitir que ele acabasse com meu sossego me atazanando com essa novela de advogado bem sucedido, Tocantins e outras barbaridades. Bebi cappuccinos, sorri para os bêbados, fui a feiras e fugi das conversas sérias.

No Domingo à noite, intacta, entrei no ônibus e ele ainda me preveniu mais uma vez, eu deveria pensar bem e achar os trilhos, lindas crianças enfeitariam a nossa vida, ele advogado e eu, professora, por que não? Que eu pensasse bem…..Da janela o vi abanando a mão num gesto esperançoso. Algum tempo depois telefonou e disse que assim não dava pé, não íamos chegar a lugar nenhum. Eu era uma sem-rumo, não sabia o que queria. Argumentei, por orgulho e porque não estava acostumada a levar pés na bunda. Não, ele não queria tentar mais por que eu não sabia o que estava tentando. Pronto, era assim, que eu não me perdesse definitivamente na minha confusão. Passar bem.

Passei.
...
Leila S. Terlinchamp

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O quadro


[Obs:História baseada no conto ‘La Fresque’ retirado do livro “Chroniques de l’étrange” de Pu Songling (1640 – 1715), autor chinês que já foi traduzido para todas as línguas latinas exceto o português. Eu estou trabalhando na tradução de alguns dos seus contos (não do chinês, infelizmente, mas do francês e/ou inglês)em conjunto com uma pequena editora.]
...

O quadro

Virgílio, originário de uma cidade do interior, encontrava-se na capital em companhia de seu amigo Pietro. Um dia caminhavam os dois sem destino certo por ruas e travessas quando encontraram um pequeno museu. O lugar estaria completamente deserto não fosse a presença de um velho empregado que cochilava quando eles entraram. Mal os viu, o homem compôs respeitosamente as roupas e, cumprimentando os dois visitantes, ofereceu-se para lhes mostrar o que considerava seu pequeno refúgio.
A sala principal abrigava máscaras e estátuas de personalidades ligadas à literatura, as paredes laterais eram cobertas por quadros pintados com tal delicadeza que se podia tomar por verdadeiras as figuras humanas ali representadas. Em um dos quadros via-se Ariadne sorridente, a palma da mão levantada, rodeada de outras mulheres de beleza quase comparável à dela. Sua figura, porém, se destacava e comoveu o coração de Virgílio. O olhar de Ariadne parecia um convite. Tanto concentrou-se na contemplação do quadro que perdeu o controle de si, seus pensamentos tornaram-se tão abstratos que entrou numa espécie de transe, sentiu o corpo tomar uma nova consistência, como se flutuasse num estranho nevoeiro - Subitamente estava dentro do quadro.
Assustado, Virgílio compreendeu que se encontrava em outro mundo. Ainda abestalhado sentiu que o puxavam furtivamente pela manga, virou-se: Ali estava Ariadne a lhe sorrir. Ela afastou-se repentinamente e ele a seguiu de perto pelas galerias sinuosas até a porta de um quarto, uma vez ali, ele hesitou, não ousava entrar. A moça voltou-se e acenou de forma tão convidativa que Virgílio não pode resistir. Percebendo que não havia ninguém no quarto tomou-a imediatamente nos braços sem que ela oferecesse resistência. Horas mais tarde, satisfeita , ela se levantou, fechou as cortinas e, depois de avisar que ele não deveria emitir sequer um ruido, saiu prometendo que voltaria quando a noite caísse. E assim foi, voltou nessa noite, na noite seguinte e outras até que numa dessas vezes ouviu-se lá fora, no meio de vozes exaltadas, passos fortes juntamente com um tilintar de correntes. Ariadne levantou-se apavorada e espreitou pela janela: era um dos guardas do palácio. À sua volta se encontravam todas as outras moças. “Onde está Ariadne?", perguntou o homem. "Estava indisposta, está descansando", respondeu uma em nome de todas tentando acobertar a moça que elas tanto amavam e a quem tanto apreciavam escutar. "Se alguma de vós estiver escondendo algo importante será pior para todas. Não criem problemas dos quais ninguém vos poderá defender". O oficial, com o seu olhar de águia, parecia prestes a dar busca no esconderijo. Ariadne só teve tempo de dizer: "Rápido, esconde-te debaixo da cama". Quanto a ela, abriu uma porta secreta na parede e desapareceu num segundo. Virgílio mal se atrevia a respirar. Lá fora, o barulho das vozes ia esmorecendo. Apesar do medo e do desconforto não tinha outro remédio senão esperar, muito quieto, pelo regresso da jovem pois, tão toldado se encontrava seu espírito, que já não sabia de onde tinha vindo...

Ao aperceber-se do súbito desaparecimento de seu amigo, Pietro, perplexo, perguntou ao velho o que se passara. "Foi ouvir as histórias de Ariadne", respondeu com um sorriso irônico nos lábios. "Onde?" "Não foi longe", atalhou o outro dirigindo-se ao quadro. Chegando-se à pintura bateu com um dedo e perguntou: "Porque demoras tanto?" Imediatamente surgiu no quadro a imagem de Virgílio, a face descomposta pelas emoções, a cabeça ligeiramente inclinada como se estivesse a ouvir alguma coisa. "Há muito tempo teu companheiro te espera”, prosseguiu o homem. Nesse momento ele caíu do quadro e ficou prostrado no chão, os olhos esbugalhados e as pernas a tremer. Assustadíssimo, Pietro perguntou-lhe o que acontecera. O amigo não sabia o que responder; na verdade, estava debaixo da cama quando ouvira um enorme fragor, como se mil homens tocassem a um só tempo um tambor gigantesco. Apavorado, saíra a correr da câmara.

Os dois amigos voltaram-se para o quadro; a jovem continuava ali diante das outras, mas sua mão, agora, segurava o véu. Surpreso, Virgílio voltou-se para o velho e perguntou-lhe a razão daquela mudança. "A ilusão nasce do espírito humano. Que outra explicação poderia lhes oferecer esse humilde servidor?"

Virgílio sentiu-se extremamente abatido, Pietro estava confuso. Ambos se levantaram e desceram as escadas que conduziam à saída.

Leila S. Terlinchamp

domingo, 24 de agosto de 2008

Mosaico de horas

Eu e essa estrada, faz anos que é assim, tantos que ela já é quase uma pessoa. Uma pessoa, é isso, a gente vai rodando... rodando.... nessa solidão e começa a racionar besteiras, uma estrada vira uma pessoa, já se ouviu de tudo, quer dizer, na verdade ninguém ouviu porque estou matutando sozinho. Mas, se tivesse alguém aqui eu ia mostrar o tanto que conheço bem esse caminho, daqui a uns quinze ou vinte minutos vou passar por aquela árvore grande pendendo pra esquerda, uma de galhos engraçados, parece que quer abraçar, vamos ver, vou marcar no relógio, tivesse alguém aqui ia ver como estou certo. Bom, ia ver ia ver e de quê isso ia servir? De nada. Uma inutilidade saber que em tal lugar dessa estrada tem isso ou aquilo. Algumas vezes necessitamos também dessas coisinhas inúteis, essa que é a verdade, ajuda ao menos a pontuar minha solidão. É que tenho que manter a cabeça ocupada, essa vida de estrada é muito das esquisitas se a gente analisar, estrada, estrada e mais estrada, ninguém imagina o que é isso, nem eu imaginava que um dia ia ser assim, que a solidão pudesse ser tão vasta, que ia ter que treinar a minha própria cabeça para não ficar doido, vou pensando numas coisas e tentando não pensar noutras, às vezes pulo sem mais nem menos de um assunto pra outro, mudo completamente de rumo, de propósito. Lá está a tal da árvore, vamos ver, dezessete minutos contados, nem quinze, nem vinte, mas dezessete que está no meio. Olha lá, dá até vontade de abanar a mão pra ela. Veja o que a solidão faz com um homem, estrada vira gente, árvore vira gente...Um dia escutei no rádio uma história estranha, era sobre as sereias, essas também foram uma invenção da solidão do homem. Ficavam os marinheiros a marear por longos meses, anos, quem sabe, naquela solidão absoluta, quer dizer, só não era mais absoluta que a minha nesse caminhão porque lá eles tinham outros homens pra conversar, mas sempre os mesmos...não sei, em todo caso, mulher é que não viam, daí a imaginação desses coitados transformou um peixe - um peixe que consegue sair da água por uns instantes – na mais bela criatura fêmea que havia, fêmea, mas não mulher, ou mulher só pela metade. Solidão é isso, invenção. Estrada, minha estrada, até quando seremos nós dois?

De noite leio umas pagininhas do bang-bang, escuto as notícias no rádio e durmo, umas vezes o sono vem rápido, outras demora, quando demora é o diabo, esticar essa solidão diurna é pagar os pecados que a gente nem tem tempo de cometer. Na manhã seguinte, a estrada está lá esperando a minha marca, é quase infinitamente assim, um dia não há de ser mais porque até o que parece infinito tem que ter um fim. É.

...

imagem:Ichi en so, shingai Tanaka

domingo, 13 de julho de 2008


Xantipa

Aqui dorme-se bem, o colchão é macio, os lençóis alvos e perfumados. Sim, aqui dorme-se muito bem, não é como no meu pequeno e imundo barraco. Gostei dessa ilha tranqüila e silenciosa, sobretudo agora. Vou partir contrariada, com o coração aos pedaços, diria se fosse um pouco mais dramática. É duro abandonar tanto conforto, mas já é tempo. Amanhã pego o barco e vou por aí, deixo todo mundo aqui que eu estou cansada dessa gente. Obrigada pela cama, pela boa comida, pelos vinhos, pela praia, pelo sol, por tudo….Vou-me. Depois de tantos anos, digo-lhes, finalmente, adeus!


Dona Adélia Campos Guimarães, minha patroa, nem responde, os outros também não. Ninguém mais responde e nem ordena: ‘Xantipa vá buscar isso, por favor.’ ‘Xantipa, nós vamos jogar tênis, prepare um lanche para daqui a duas horas, sim?’ ‘Xantipa, vamos jantar às oito horas, prepare os camarões.’


De manhã lhes sirvo café quente, pães, sucos, limpo a mesa, o chão, troco os lençóis, lavo as toalhas, muitas toalhas que devem estar sempre limpas e cheirosas. Mas tudo isso é pretérito imperfeito, falo no presente por descuido e costume, agora estão todos lá fora, com a boca já cheia de formigas, outros estão ainda na varanda onde lhes servi o camarão bem temperado. Camarão é uma comida estranha e facilmente perecível, eu mesma detesto camarões, sou alérgica, mas eles gostam, digo, gostavam. O Valter não deve ter comido bastante e me deu trabalho. Droga! Esse imbecil bebia tanto que não se importava em comer. Eu devia ter temperado as bebidas também. Da porta vi quando os outros começaram a sentir tonturas, alguns não tiveram a decência de procurar um canto escondido para vomitar e, vendo aquele espetáculo, vomitei também. Não suporto ver gente vomitando, tenho o estômago fraco, ele dá umas reviradas e, como num ato de solidariedade, vomito junto. Valter, que já estava bêbado, não entendia direito aquelas cenas. Alguns correram para o mar procurando, decerto, se refrescar, então, percebendo que não se tratava de uma brincadeira, o beberrão quis entrar para telefonar, eu empurrei a porta e me tranquei aqui dentro. Ele deu murros, pontapés e depois tentou as outras entradas, mas não tinha muita força, desistiu e tentou chegar ao barco, logo o alcancei e dei-lhe uma cacetada na cabeça. Merda, com essa eu não contava, mas tive que fazer, com o barco ele podia, rapidamente, avisar um dos vizinhos. Foi chato isso, pois uma coisa é envenenar comidas, outra é sair distribuindo cacetadas em cabeça de bêbado. Para o envenamento eu tinha me preparado com muita antecedência, tinha estudado e, além disso, era colocar o veneno e esperar agir, já as cacetadas foram todas improvisadas, uma violência. Foi chato, muito chato, mas está feito.


Agora é apagar o que puder dos meus traços, juntar as minhas poucas roupas e desaparecer. Vou amanhã bem cedo antes que os curiosos apareçam por aqui, o telefone tem tocado cada vez mais, os recados preocupados se acumulam na secretária eletrônica. É tempo.


Bruxelas 11/10/2000

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Não creio em bruxas, mas...

Lorena, com seu rosto de uma brancura alabastrina, nariz minúsculo e olhos que lembravam dois lagos plácidos comoveu-me à primeira mirada. Sou do tempo em que, para se descrever uma mulher, não temíamos os clichês. Casamo-nos depois de muito verbo, muitos presentes, muita amolação dos meus filhos que não queriam ver a herança escorrendo para mãos alheias. Um dia chego em casa ansioso por beijar minha doce Lorena e a encontro com Letícia, bebendo e rindo. ‘Minha melhor amiga’, disse ao apresentá-la. Semanas seguidas, ao chegar, tinha que fazer face àquela irritante presença. Insisti com Lorena para que fizéssemos uma viagem, ela recusou, não só recusou como explicou que ela e Letícia iam viajar juntas para uma convenção de bruxas, sim, que eu acreditasse, eram bruxas, eu podia esquecer tudo aquilo que conhecia sobre velhas de dentes pretos e nariz cheio de verrugas. Fez até uns truquezinhos para provar. Esperneei, aquilo já era abuso, ela ameaçou anular o casamento e eu cedi porque, apesar de todas as estranhezas, não queria arriscar-me a perdê-la. Por mais de um mês estiveram a viajar, meus filhos aproveitaram o tempo para aporrinhar-me, tratando-me como um velho gagá que tinha abandonado por completo o bom senso. Mas não era o meu senso que os preocupava.

Chegaram as bruxas, sim, chegaram, no plural. Encontrei-as dormindo na sala, livros jogados aqui e ali. ‘E então?’ Resmunguei alto com o claro intuito de acordá-las. Abriram os olhos se espreguiçando como duas gatas, disseram que estavam estudando bruxarias e caíram no sono....Olhei para as capas: Anaïs Nin, Virginia Woolf? Nunca me ocorreu que tivessem sido bruxas. Riram a mais não poder da minha observação e nem se deram o trabalho de explicar a bizarrice. Maldito o dia em que sucumbi, em que olhei para aqueles olhos, estava mesmo senil. Suspirei desanimado e sentei-me no sofá na frente delas. Comovidas pela minha resignação, vieram as duas, sentaram-se cada uma de um lado, passaram as mãos na minha cabeça e perguntaram, com uma doçura que me espantou, se eu estava bem e se desculparam pela risada sem propósito. Vocês são mesmo bruxas? Perguntei. Somos umas bruxinhas amadoras. Foi Letícia que respondeu, com uma voz brincalhona. Olhei para ela e só então percebi como era bonito o seu sorriso. Você vai morar aqui, Letícia? É um convite? Foi sua resposta. Era certo que eu estava perdendo a cabeça. Correu para a cozinha dizendo que ia preparar um banquete para comemorarmos, e preparou mesmo, fazia tempo que eu não comia e bebia tão bem. Preparam ainda meu banho, minha cama, contaram-me histórias até eu dormir, mas, quando acordei, não era em minha cama que Lorena estava. Levantei cedo e lá vieram as duas dar-me bom dia com beijinhos de filhas comportadas, agradecendo por eu ter ‘deixado’ Letícia morar conosco.

Agora nossos dias correm tranqüilos, adequei-me a esse estilo. É faltar uma delas em casa e já fico confuso.

Bruxas? Não acredito.

...

imagem: Enigmatique, Keith Mallet

domingo, 29 de junho de 2008

Le baiser de l'hotel de Ville, Robert Doisneau.
...
O canto

“Fear no more the heat o’ the sun

Nor the furious winter’s rages.”

Shakespeare

Londres. Uma mulher canta uma música antiga. Cantava, naquela mesma calçada, em frente à estação Regents Park, desde 1923. Um canto que celebrava a vida e Laura só conseguia pensar na morte. Aquela língua não era a sua, mas havia uma tal beleza na voz e nas palavras. Como podia estar ali por tanto tempo? Laura tinha decidido que naquele dia ia fazer pães de queijo. A mãe explicara tudo por telefone. Peter era tão britânico, até na forma de comer, não ia gostar, tinha certeza, mas ia experimentar e ia dizer “Oh, darling!” Peter era tão britânico, mais que isso, era tão londrino, suportava quinze dias fora de Londres, não mais. O céu de Londres era tão diferente do dela. Como é que duas pessoas estranhas decidem viver juntas? Em que momento? Irracional e humano. Tinha saído para comprar ovos e polvilho, aquela sacola agora a incomodava. Peter nunca ia gostar dos seus pães de queijo, ainda que ela os fizesse como a sua mãe. Tinha graça preparar tudo aquilo só para ela? Ia preparar, tinha tomado esta decisão pela manhã, durante a noite, aliás. Tinha dormido pouco, muito pouco. Coloca a sacola com os ovos no chão, enfia as mãos nos bolsos do casaco para aquecê-las enquanto ouve a velha e o seu canto que celebra a vida, então um menino passa de patins, esbarra nos ovos, vira-se e, sem parar, diz: “Sorry!” Laura abre a sacola, enojada, vê uma gosma formada por algum ovo quebrado. Quantos? Ainda tinha o suficiente para a sua receita, não precisava de mais que três. Sente as mãos geladas, mete-as de novo no bolso e volta a olhar para a mulher. A mãe de Peter, tampouco, ia gostar dos pães de queijo, era um saco ver aquelas caras educadas, mal engolindo a comida, com um prazer fingido. Propositadamente fingido. Coisas que ela, Laura, adorava. E o respeito que tinham pela família real!? Tratar aqueles bonecos com tanto apreço, palhaçada.... Enfim, maldade julgá-los somente por este ângulo. O que tinha ela hoje? Laura! Laura! Acorda. Essa mulher, daqui a milênios, vai estar cantando esta mesma canção. Londres era tão fria em janeiro. Quantos janeiros já tinha passado ali?

Não era verdade que pensava na morte, como podia pensar na morte carregando a vida em seu próprio ventre? A continuação dela e de Peter, e da mãe de Peter que defendia a monarquia e do pai de Peter que não vivia mais e de sua mãe que tentava lhe ensinar, de longe, a fazer pães de queijo e que depois chorava ao telefone. ‘Minha filhinha!’ Bobagem, não era exatamente na morte que estivera pensando. Mulher nenhuma.....Todo mundo, garantiu o médico, tinha seus momentos e nesse estado, então, era mais do que perdoável. Perdoável? O médico tinha dito isso? Perdoável? Ou foi Peter? Ela tinha que ser perdoada?

Sente, no fundo do bolso, uma moeda, joga-a para a mulher que cantava, e ela move os olhos. Agradecidos? Um discreto tilintar. Laura pega a sacola, entra na estação de metrô e caminha pensando em Peter. Peter que já devia estar esperando em casa para escolherem juntos a cor do quarto do bebê.

Leila Silva Terlinchamp
publicado na Revista Cult.


Andanças

Um dia vi Veneza,

Vi Paris e Istambul.

Em Istambul queriam me vender tapetes mas disse ‘No, thank you’ e fui ver a mesquita Azul. Depois tomei uns porres e fui ao Hamam, onde mulheres com os peitos grandes à mostra me banharam, me massagearam enquanto narravam umas às outras as peripécias do dia. Isso é o que eu supunha, visto que de turco, nada entendia.

Em Veneza comprei um chapéu barato que levei para Cingapura.

Cingapura eu vi, revi e vivi e lá deixei o meu chapéu veneziano.

Em Cingapura chovia.

Todo dia.

Minha amiga japonesa nunca se esquecia da sombrinha.

Tão precavida, essa Misako.

E eu, tão descuidada, tomava muitos pingos e sofria de sinusite. Uma chinesa quis me tratar com acunpuntura dizendo, com muita honestidade : ‘Vai doer !’. Covarde, fui embora. Já me bastava a dor da sinusite.

Fui a Roma e não vi o Papa, fui ao México e não vi Cancun.

Na cidade do México, o motorista de táxi me fez escutar Nélson Ned, ´um grande brasileiro.` Explicou-me e levou-nos à casa de Dolores Del Rio. Frida também estava lá.

Nunca vi Cusco, nem Bagdá

Nem Jerusalém, nem Calcutá.

Mas tempo haverá.
Que o Senhor vos acompanhe

Tio Pedrinho tomou um copo de água, caminhou devagar até o quarto, rezou e foi dormir. Lá pelas tantas escutou um barulho, levantou-se de um pulo, pegou a espingarda e apontou para o sujeito “Que é que cê tá querendo aqui, ô nortistinho?”, perguntou com voz determinada, tentando disfarçar o medo. Ninguém respondeu. Ele ajeitou os óculos e percebeu que o ‘nortistinho’ era a sua própria imagem refletida no espelho do guarda-roupa. Riu de si mesmo, largou a espingarda num canto e foi tentar achar o sono outra vez porque era sábado, e domingo de manhã era dia de ajudar o padre a celebrar a missa. Rezou mais uma vez para ver se o sono voltava. Com essa história do nortistinho tinha perdido a vontade de dormir. Levou um belo susto. Também, todo mundo só fala desse Orlando Sabino e é nisso que dá, a gente começa a dormir e acorda assustado, vendo coisas, pensava ele. Orlando Sabino era o bandido mais temido desses dias. Ele já tinha matado com grandes requintes umas vinte pessoas, ou cinquenta ou cem…os números e os fatos variavam dependendo do contador e do jornal. Enfim, tirou os óculos, colocou-os à mão no banquinho ao lado da cama e dormiu.

De manhã vestiu-se elegantemente, pôs o chapéu e caminhou devagar até a igreja. Lembrou-se do susto durante a noite. Já tinha esquecido completamente. Riu de novo de si mesmo. Aquilo foi engraçado. E ele chamando a si mesmo de nortistinho! Era muito engraçado. Se não estivesse na rua ia rir de verdade mas ali, se passassem por ele iam pensar que estava louco. Lembrou-se da mulher chata e feia que deixara em casa. Nem se desejaram bom dia, tomou o café que ela tinha preparado e foi tudo. Ela era velha agora mas já era feia e chata quando jovem. Casou-se com ela meio assim de susto. Não pensou direito. Analisava. Que pena que não conhecera a irmã dela melhor antes do casamento. Bom, agora já estava feito. Já estava feito e já tinha muito tempo, muitos filhos, muitos netos. Não havia muito sentido em pensar nisso e não era culpa dele se não teve tempo de decidir direito antes de casar-se com a megera. E era culpa dele se a irmã dela ficava lá na casa dele tentando? Não era fácil ter aquela mulher feia e chata com uma irmã tão boazinha e fácil. Um dia não resistiu e os dois pecaram. Depois da primeira vez foi fácil fazer novo e de novo até que a cunhada ficou grávida e, apesar de todos os esforços, não teve como abafar o escândalo. Depois disso cada um foi para o seu canto. Ele foi enfrentar a esposa e a outra virou mulher da vida. Mais ou menos mulher da vida, vivia com um, depois com outro. O tempo ajeita tudo. Analisava.

Assim, sem se dar conta chegou à praça, cumprimentou o farmacêutico que estava sentado no banco em frente à farmácia. Atravessou a rua, andou mais um quarteirão. Do outro lado da rua viu o marido da sua neta e cumprimentou-o um pouco envergonhado lembrando-se do acidente com a espingarda. Tio Pedrinho estava de carona com neto e levava a espingarda carregada entre os joelhos, apontada para cima. Quando o carro passou por uma estrada esburacada, chacoalhando muito a espingarda disparou e fez um furo no teto do carro. Não sabendo o que dizer, tio Pedrinho disse “Ainda bem que não pegou na lamprinha”. Ele era engraçado, tio Pedrinho. O meu primo, entretanto, não achou muito engraçado o buraco no seu carro. Ficou danado de raiva. Ainda assim, atravessou a rua e veio pedir a benção e tio Pedrinho respondeu, muito digno “Deus te abençoe, meu filho. Onde é que você está indo?”Ele estava indo para a fazenda. Nunca ia à missa.

Chegou à igreja, tirou o chapéu, entrou e foi andando até o cômodo detrás do altar, lá onde o padre se vestia e onde guardavam o cálice, o vinho e as hóstias. O padre já estava se arrumando. Ele não vestia batina no dia a dia, só para celebrar a missa e quando ele erguia as mãos consagrando a hóstia a gente podia ver a barra das calças dele. Aquela barra da calça destoava do resto, não combinava com o espetáculo. Tudo era muito bonito mas aquela bainha aparecendo! Era um desmazelo da parte do padre e parecia acordar a gente para a realidade. E a gente não esta ali para isso. Estávamos ali para ver o padre de branco, a hóstia branca, o altar forrado de branco com umas flores aqui e ali, as três irmãs na primeira fila e o tio Pedrinho ajudando o padre. Daí a gente olhava para baixo e via a bainha marron do padre. Ah, não! Nunca me queixei, entretanto, senão ainda levava uns cascudos da minha avó que era irmã do tio Pedrinho. “E porque é que você está olhando para os pés do padre enquanto deveria estar olhando para a hóstia que ele está consagrando?” Eu já sabia disso. Eu era criança mas não era boba, sabia que quanto menos falasse, melhor. Era assim a minha infância nesta grande família e nesta pequena cidade.

Com as palmas das mãos para cima, todo mundo rezava “Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino…..” Depois as irmãs entoavam o coro “Eu sou o caminho, a verdade e a vida….” E todos cantavam desafinadamente. No final o padre dizia “Vão em paz, que o Senhor vos acompanhe”. Então todo mundo ia saindo, cumprimentando todo mundo. Tio Pedrinho saía também. Todos discutiam por uns minutos na frente da igreja até que sentiam calor ou fome e cada um voltava para as suas casas para viver o domingo.

Poet's Walk, Henri Silberman
...

Doce é a infância

Na frente da casa, do outro lado da rua, ficava a cadeia, um dia Lídia, ainda tão pequenina, caminhava sob os mangueirais quando o seu olhar cruzou-se com o de um prisioneiro à janela, as pernas e os braços livres, enfiados na grade. Podia vê-lo muito bem, a cadeia não era cercada por muros. O encontro durou poucos segundos, ela continuou os seus passos lentos, chutou algumas folhas e, decerto, desviou o olhar. Foi então que o prisioneiro disse: ‘Não precisa ter medo.’ Ela chutou mais algumas folhas e continuou a andar olhando para o chão. Não tinha medo, raciocinou, afinal, ele estava do outro lado da grade e ela de fora. Mas quem era ele? Nessa altura, já tinha aprendido que aquela casa amarela não era uma moradia de gente ‘de bem’, muito embora não compreendesse o exato significado disso. Sabia, entretanto, que se a mãe chegasse ao portão e a visse dirigindo a palavra a um prisioneiro ela estaria frita. Não, não respondeu e se perguntou o que teria ele feito para merecer estar ali a observar as mangueiras por detrás daquelas grades enferrujadas. Abandonou o homem à contemplação, atravessou a rua e entrou em casa. Passou direto pela porta da cozinha onde a mãe estava ocupada com as panelas e foi para o fundo do quintal, subiu em alguns tijolos que já estavam estrategicamente postos ali e espreitou o vizinho mudo que passava os seus dias a limpar a casa. Limpava tanto que o chão refletia. Pelo muro ela, as irmãs e primas costumavam observar o mudo e o alpendre reluzente e riam sem saber porquê. O mudo tinha um mico preso por uma corrente e um papagaio. E o papagaio falava. Pois é.

O mudinho, diziam, ia com meninos para o meio do mato. E daí que o mudinho fosse para o mato com os meninos? Ninguém era proibido de andar no mato. Ou a ele isso era proibido só porque era mudo? Mais um dos muitos mistérios. ‘O mudinho vai para o mato com os meninos’. Até a prima viera lhe dizer isso esperando que confessasse a sua ignorância mas ela só fez arregalar bem os olhos como se a revelação a tivesse impressionado muito.

Desceu num pulo dos tijolos quando ouviu a voz nervosa da mãe e, na pressa, arranhou os dedos no muro. A mãe mandou-a comprar legumes e advertiu que não perdesse o dinheiro como tinha feito da última vez. ´Essa menina parece que vive no mundo da lua!` Ouviu a mãe dizer e apertou as notas. Quando voltava, andando devagar e distraída, pela rua seis, a principal, deixou tudo cair por terra. Na sua frente apareceu um menino que ela conhecia de vista do catecismo. Assustou-se com aquela presença, o menino era um demônio que vivia atormentando as irmãs e as meninas, juntava-se a outros e balançava violentamente a corda do sino que retinia desesperado e sem propósito. As irmãs acudiam apressadas, levantando os longos vestidos e ameaçando chamar o padre. Nada disso assustava aquele moleque que, dependurado na corda, gargalhava fazendo blém…blém…blém… e só corria quando as irmãs já estavam bem próximas.

Pois esse mesmo menino estava ali, na sua frente e, num gesto inesperado, ajudou-a a recolher os legumes. Com a cara rubra, pressentindo o pior, balbuciou, timidamente: ‘obrigada’. Ele riu alto e repetiu a última frase da piada do elefante e da formiguinha: ´Obrigado nada, pode ir descendo a calcinha`. Lídia fugiu apavorada deixando para trás umas batatinhas.

Como foi boba, por um segundo acreditou na pureza daquele gesto, por um segundo aquele menino tinha mudado aos seus olhos, não podia ser o diabo que pintavam. Pode ser… pode ser que, por um segundo, a sua intenção tenha sido a de ajudá-la, mas, no último instante, ao olhar para aquele passarinho frágil não tenha resistido à tentação de dar uma pedrada.

Bruxelas, inverno de 2003.
Beatriz e o arco-íris

‘Beatriz, eu te chamei aqui por que….’ Imaginando o que estava por vir, Beatriz abaixa os olhos, morde os lábios, cora um pouco e emudece, tornando mais difícil o trabalho de Renata. ‘É que as festas de fim de ano já estão começando e….’ Renata engasgava de novo, mexia-se na cadeira, ajeitava o corpo e a barriga grande de oito meses. Estava gorda, por causa da gravidez, talvez, mas não era feia. Nem feia, nem bonita, andava sempre bem penteada e bem vestida. Era ela a dona dessa lojinha de artigos para bebês e crianças onde Beatriz preenchera uma ficha e fôra chamada para o período de experiência. A cada vez que um cliente ou, muito mais provável, uma cliente entrava Beatriz corava e perguntava muito baixo do que ela estava precisando, mostrava o que lhe pediam, mas nunca conseguia insistir ou rir de forma expansiva e jogar conversa fora como as outras vendedoras. Era uma catástrofe! Sabia disso, mas precisava do trabalho.

Aquele não seria um bom dia, teve esse presságio quando se levantou e a mãe, que tinha acordado mal-humorada, disse-lhe que, se quisesse café, deveria ter se levantado mais cedo e preparado ela mesma. Abandonou o café e foi tomar o ônibus pois que chegar atrasada no período de experiência não era, definitivamente, uma boa idéia. Antes das oito, antes de todo mundo chegar, lá estava ela plantada na frente da loja.

Mas não era verdade que o mal humor da mãe dera o tom ao seu dia, vira a mãe se levantar assim ano após ano, dezessete anos para ser mais exata. Evidentemente não se lembrava dos primeiros, mas também deveriam ter sido assim pois se a mãe não tinha paciência com adultos, tinha ainda menos com crianças. Por isso mesmo Beatriz nem se lembrava de quando deixara de ser criança, sinal de que o evento se dera muito cedo pois que tinha boa memória, isso tinha. Lembrava-se até dos sonhos que sonhara lá pelos três ou quatro anos de idade. Sobretudo um sonho vermelho, uma noite de natal suave e terna. Era o único sonho colorido de que se lembrava. Um vermelho forte e um papai noel que não sabia de onde a sua imaginação tinha tirado. Uma coisa era certa, não era a pragmática mãe que tinha alimentado aquela ilusão.

‘Infelizmente você não serve para esse serviço…..’ Beatriz sente uma dor na garganta, engole, a muito custo, a saliva que se acumula na sua boca. ‘…..Você é muito tímida, sinto muito….’Finaliza Renata sem jeito, ao perceber as lágrimas rolando na face angustiada da moça. Ela limpa os olhos e assina, sem ler, os papéis colocados na sua frente, pega o pouco dinheiro que lhe é devido, deixa a loja e vai andando nas ruas. Como é que ia chegar em casa e anunciar para a mãe que estava de novo sem trabalho? Nem completara o mês de experiência, não conseguia ser nem mesmo uma vendedora de artigos para bebês e crianças. E sonhava com tanta coisa!

Entra num bar, pede um café e um pão de queijo, ia tomar o seu café sossegada e só mais tarde ia para casa ou talvez ficasse por aí até dar a hora da aula. Ia ver.

Bem que podia ir na casa do Magno que morava perto dali, mas o Magno era mau pra caramba, ele sofria e queria que todo mundo sofresse igual ou pior. Logo ia perguntar o que ela estava fazendo ali àquela hora, se ela dissesse a verdade ele ia explodir numa gargalhada cínica. Talvez não fosse por pura maldade, mas Magno era assim, pequeno, contrariando o nome. A risada cínica e debochada era a sua defesa contra o mundo que o fizera franzino e sem pai, sem pai e com uma mãe mais rancorosa que uma baleia.

Toma o último gole do café que, felizmente, era forte o bastante, vira os olhos tentando, com o gesto, conter a água salgada que já começava a se acumular ali no canto. Inferno! Já tinha tido a sua quota de patetice do dia. Como podia dois diminutos canais serem tão traiçoeiros? Pisca seguidas vezes, na esperança de enganá-los. Um dia ouviu a história de uma criança que nascera com um dos canais entupidos e então, quando chorava, as lágrimas só saiam de um lado. Será possível isso ou seria conversa pra boi dormir?

Não ia na casa do Maguinho porque, se ele se pusesse a rir, ela ia chorar. No boteco, agora, só estavam ela e o dono, ou empregado, sabe-se lá. E notou que ele a olhava com curiosidade, deve ter percebido aquelas lágrimas querendo saltar. Ia embora antes que ele fizesse alguma pergunta, qualquer pergunta podia ser fatal. Paga e sai, uma vez fora não sabe que rumo tomar, mas se tomar a direita vai passar em frente à loja e isso não quer, toma então a esquerda, caminha até a praça. Se tivesse um bom livro poderia sentar-se ali e passar um tempo. Não podia, na verdade, logo algum conhecido passaria e…não, tudo menos isso. Era um saco essa cidade, grande e pequena ao mesmo tempo. Vê a igreja na frente da praça e percebe que era aquele o refúgio de que precisava. Seria tão bom se Deus existisse, se Ele existisse e que fosse bom, que fosse mais humano, não um Deus que ficava pedindo aos homens para sacrificarem seus filhos, que testava a paciência de um, o amor de outro, como se não tivesse nada mais importante no mundo a fazer. Não, isso não podia ser coisa séria. Se fosse ela ia arder no fogo dos infernos por esses pensamentos. Isso só podia ser uma brincadeira dos homens que a avó tratara de meter na sua cabeça.

Encontra a igreja fresca, limpa e vazia, molha os dedos na água da pia e os esfrega um no outro, senta-se e pensa que podia até deitar-se no banco e descansar um pouco, mas aí logo apareceria alguém para aborrecer, um padre, uma freira ou uma carola. Ajoelha-se como se estivesse rezando, não está, está só escondendo o rosto para chorar melhor e em paz. Então quer dizer que se ela fosse Deus, tivesse ela os Seus poderes, ela seria melhor que Ele? Porque ela nunca deixaria um filho seu morrer à míngua ou nascer sem um braço, sem uma perna ou ficar cego…Tudo isso Ele permite quando poderia evitar com os poderes que tem. E, fosse ela Deus, Eva podia ter comido todas as maçãs do paraíso e muito mais, tudo isso não podia ser sério, mas se fosse ela ia pagar caro. A avó lhe avisara ‘Se não tinha amor a Deus, que tivesse pelo menos temor.’ E temor foi o que sentiu por muito tempo. Agora este temor estava se tornando em raiva. E depois da raiva o que viria?

Limpa o rosto e sai da igreja, quando chega na porta percebe que está chovendo. E se aquilo fosse um dilúvio e a igreja fosse a arca de Noé? Se fosse, ela pularia ou ficaria ali? A chuva durou poucos minutos, teve, então, a idéia de ir à biblioteca. Fazia tanto tempo que não ia lá, um ano, talvez. Lembra de quando teve que ir vários dias seguidos para terminar um livro que não tinha coragem de levar até a bibliotecária e, muito menos, de chegar com ele em casa.

Caminha sob os últimos pingos da chuva, já eram eles tão fraquinhos que ela nem se dava ao trabalho de esconder debaixo das marquises. Era até bom sentir um pouco daquelas gotas. Olha para cima e vê um arco-íris surgindo, conta para ver se ele tem mesmo sete cores.

...
imagem: Goldfish, Klimt

Ser

Eu sou. Alardear isso parece sensacionalismo nos nossos dias, mas asseguro-lhes que no meu caso torna-se necessário. Ser não é fácil para ninguém, eu sei, mas quando se é uma atriz, uma farsante, uma profissional que ganha a vida vendendo o corpo, o ser toma outra dimensão e exige cuidados extremos, muita disciplina. Um pequeno lapso e já não sou mais.

Poderia começar por dizer simplesmente que meu nome é Clara, mas isso não alteraria nada e nem é verdade. Então eu digo que sou uma prostituta e vivo na cidade de Londres. Duas coisas importantes e reais.

Tem dias que saio de casa com a bolsa cheia de papéis, entro numa dessas românticas cabines telefônicas e prego ali os anúncios com uma foto que mostra, felizmente, mais as partes irreconhecíveis do meu corpo, pode-se ler também uma pequena descrição dos serviços e um número de telefone. No mais, eu e as outras meninas passamos o nosso tempo a esperar os telefonemas ou a campainha, jogamos conversa fora enquanto isso, tomamos café e rimos. É preciso rir. E, claro, quando a campainha toca é sinal de que teremos trabalho. Então nos alinhamos, trajadas a rigor, cada uma apresenta a sua melhor performance, umas abrem a boca, passam a língua nos lábios vermelhos, outras olham para baixo e fingem-se de tímidas, a idiota da Cindy (idiota até no nome que escolheu) sempre solta um ‘hello!’ que ela pensa que é sensual. Enfim, cada uma faz o que pode para chamar a atenção e, se não fizer, a madame vem aporrinhar e dar lições de procedimento que devem ser evitadas a todo custo porque ela é patética. Aí vem um medo de envelhecer e pensar que pode ser esse mesmo destino que nos espera. Penso nisso e me empenho, melhor ser ridícula agora do que patética mais tarde.

Como percebem, é fácil se perder, um dia eu posso olhar no espelho e pensar que eu sou outra, um dia eu posso acordar com um cliente e imaginar que ele é meu marido, ou, o que seria ainda pior, se um dia eu tiver um marido e acordar acreditando que ele é meu cliente?

Às vezes a gente fica de saco cheio dos homens, por isso beijei uma das meninas na boca. Eu beijei e ela riu. Depois, para mudar de assunto, ela disse que isso de ficar comparando prostituta com atriz era muito banal, todo mundo finge, todos os profissionais fingem, as esposas fingem, os maridos fingem, ninguém suporta ser vinte e quatro horas por dia. Seria uma insensatez. Perguntei-lhe se ela conseguia ser enquanto eu a beijava e ela disse que eu parasse de bobagem, que já estava cansada da minha conversa de doida. Ora, eu que faço tanto esforço para manter o equilíbrio é que sou chamada de doida.

……a campainha está tocando, lá vai a manada para a fila, tenho que ir também ocupar o meu posto. Respirar fundo, sorrir.

...

imagem: Water Lilies, Claude Monet.

Airama

“ A mesma paisagem

escuta o canto e assiste

à morte da cigarra”

Matsuo Bashô


Um cão passa na rua. Um pobre cão magro e sem dono. Chamo-o chaninho…chaninho…chaninho…sem atentar que chaninho é chamamento para gato. Ainda assim ele vem. De tão pobre já deve ter perdido a dignidade canina.

Maria não me quer mais. Diz coisas descabidas, cospe no passado, rasga as fotos.

Dou um osso ao cão e ele abana o rabo feliz. Decerto.

Maria, agora, era pura matemática. Cinquenta por cento disso, cinquenta por cento daquilo.

Um dia colhi flores no campo e enfeitei os seus cabelos. Maria sorriu, desfez as malas e coloriu o meu armário.

Maria disse que já era ´Foda-se com as flores.´

Foda-se, tem cabimento? Não respeita mais nada.

O osso é muito pouco para um cão tão faminto, dou-lhe umas salsichas e ele agradece com o rabinho.

Um dia Maria acordou e anunciou que o perfume das flores silvestres não lhe bastava mais. Queria channel n. 5. Eu disse ´Maria, destroem a floresta e os homens da floresta para fabricar cheiro tão desnecessário.` Maria me olhou com raiva e eu ainda tentei ´O pau-rosa, Maria, não haverá mais pau-rosa.` Mas Maria não queria saber de nada.

Maria era só precisão ´Assine aqui, aqui e ali….`vai mostrando as linhas com o seu dedinho fino, era mais linda que uma laranjeira carregada.

Maria venceu na vida. Vejo a distante e artificial. Não se chama mais Maria, chama-se Airama e seu sorriso preenche a tela. Não tivesse ela telefonado para dizer seu novo nome e o horário do programa, eu não a teria reconhecido. Nem a voz era a mesma, nem os gestos, as pausas eram calculadas, os ângulos estudados, as frases bem articuladas e sem sentido. Maria venceu.

O cão ainda está aqui, lavei-o, alimentei-o, ele engordou…Olha para a televisão com a boca aberta e a língua de fora e faz ah! Ah! Maria fala das estradas que galgara para a fama, do casamento com um escritor misantropo, da sua alimentação natural, dá conselhos de beleza….Quanto mais revela, mais esconde. Maria, que era bonita como uma laranjeira. ´Foda-se com as flores.` Disse Maria e bateu a porta. Aqui fiquei com o cão que agora tem um nome, Orfeu. Orfeu faz ah! Ah! E eu passo a mão na sua cabeça. ´Já vamos, Orfeu, já vamos`.

Leila Silva Terlinchamp

07/10/2003 Atlanta


Viagem

Eu olhava, da janela, a paisagem, quadros se faziam e se desfaziam. Um eterno café com pão, há quantas horas estava já eu dentro deste trem? Sebastião dormia, conseguiu dormir. Na minha frente, um moleque branco, de olhos mansos. Tão raquítico e coitado que lhe ofereci um pão de queijo, um dos pães de queijo que a mãe de Sebastião preparara para a nossa viagem. O menino olhou para a cara da mãe esperando o sinal de autorização, balançou a cabeça que sim, obrigado. Um cachorro corria com o trem, língua pra fora, passou por nosso vagão sorrindo. Sorrindo, um cão? A viagem era demorada e cansativa, por que decidimos fazê-la de trem se aqui ninguém mais viaja assim? Idéia de Sebastião. Queria experimentar e agora dormia. Experimentar antes que se acabe definitivamente, disse e contente entrou no trem, muito cedo, eu e ele com os pães de queijo, as mochilas e os olhos cansados, mal dormidos. Tudo era estranho olhado deste trem, o lá de fora e o aqui de dentro, as pessoas e as coisas. Um jeito de passado, Sebastião dormia e perdia. Numa estação paramos, entraram pessoas, ciganos, muitos ciganos barulhentos com crianças, mulheres de muitas saias, dentes de ouro. Um dos ciganos, cara de poucos amigos, carregava um gongo, o gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio. Blum, blum. Sebastião acordou assustado, disse quê isso? Nem respondi, o cigano olhou para ele desafiador. Quer pão de queijo, Tião? Perguntei para mudar a rota dos pensamentos. Sebastião não quis. Quer outro? Perguntei ao menino. Não queria, tampouco, o cigano e o seu gongo mudara todo o ritmo. Peguei uma de minhas revistas e folheei, folheei sem vontade, olhei de novo para fora e nada tinha mudado, só o cachorro tinha ficado para trás. Vivia em algum daqueles sítios? Por certo.

No trem, pouca coisa acontecia além do barulho dos ciganos, suas risadas, um ajeitar de lenços na cabeça, só o do gongo continuava quieto, respondia a uma ou outro pergunta dos outros. Seria o chefe? Cigano tem chefe? Sebastião deu uma volta pelo trem, esticou-se, voltou a sentar e logo dormia de novo. Eu na contemplação. Mata, casinhas, cachorros, riachos, montes, crianças abanando as mãozinhas.....mais uma parada. O menino e a mãe ficavam ali, timidamente me disseram adeus. Ele a sorrir, pesaroso. Os ciganos se juntaram no fundo do vagão onde agora havia lugar para todos eles.

Tantas horas já. Tantas horas ainda. Era um viajar monótono, era um pensar. Viajar. Pensar. Revirei minha mochila em busca do livro, Noites do sertão, combinava. Mas eu ia conseguir ler nesse ‘virgem Maria que foi isso maquinista?’ E o trem parou mais uma vez, os ciganos desceram fazendo uma algazarra, como de propósito, o cigano do gongo fez novo barulho. Só eu e Sebastião continuávamos nessa viagem. Isso me deu uma estranha sensação, um medo. Se assim fosse, se não parássemos nunca de passar por esses lugares, nada mudasse, tudo se repetisse ad infinitum, se isso fosse uma condenação? Acordei Sebastião e ele me garantiu que em quarenta minutos, não mais. Jura? Eu não fico mais neste trem, não mais que quarenta minutos. Que bobagem, disse Sebastião e voltou a dormir. Sentou-se, na minha frente, um moleque branco, de olhos mansos. Tão raquítico e coitado que lhe ofereci um pão de queijo. Ele olhou para a mãe.

.....

Imagem: The long leg, E. Hopper

Beats e Harleys

Mark era um cara estranho. Strange, really strange. Ia rodar os States naquela sua Harley velha, disse. Bye bye baby. Beijou-me os lábios, botou uma jaqueta de couro preta. Dei de ombros, fazer o quê? Só aparecia maluco na minha vida, Mark era mais um. Foi o que pensei. Sei lá, não esquento muito os miolos. Deixo rolar. Rock and roll. Tinha sido bom aquele tempo com Mark, vivíamos tranqüilos num trailer, deixei todo o conforto sem graça lá no Brasil, com minha família besta. Vamos comigo, honey? Disse batendo a mão no banco de sua Harley. Vou esperar por você aqui, baby, neste mesmo trailer, vai, meu Ulisses. Cuidado com as Circes do caminho. Ser Penélope me convinha naquele momento. Jack Kerouac e outros beats amontoados, algumas garrafas de vinho e tempo, muito tempo, tempo para percorrer todas as páginas, para olhar pela janela do trailer o céu mudar de azul para vermelho para amarelo. Dá mesmo para ver o céu desta janelinha? Tecer um tapete com beats. Mark, percorra todas as estradas que puder, sinta, deixe o vento maltratar seu rosto, secar os seus cabelos. Baby, baby, baby eu não te amo, I love you. Mark era um cara estranho, espírito aventureiro, muitos projetos ele tinha e eu o encorajava, encorajava sim. Mark, um café? Um café bem forte, não essa água rala que vocês tomam por aí. Preparei o café com amor e dedicação, Mark tomou duas canecas cheias, sentou-se no sofá, fechou os olhos, deixou passar meia hora. Abriu os olhos, pegou um livro e adiou o projeto de rodar o país na velha Harley. Sempre adiava, era só o efeito passar, era só eu preparar um café amargo. Pegou o meu Kerouac e eu peguei um Burroughs. Aquela Harley há anos não rodava mais, era um enfeite no nosso jardim.

...
Imagem: Frutos de la passion, Lola Abellan.

sábado, 28 de junho de 2008

Nervos



Um espirro _

o suficiente para perder de vista

a cotovia

Matsuo Bashô

Súbito uma revolução no céu. Meus carneirinhos foram varridos com fúria e covardia. Contemplava essa transformação quando mamãe chegou e perguntou-me: O que há, meu querido? Nada, estava assistindo à performance das nuvens. Respondi. Esta bela performance está a nos dizer que mais tarde haverá chuva em abundância. Disse ela. A chuva é boa, mãe. Respondi.

O céu é tão imenso e acham de varrer os meus carneirinhos. Esse deus gosta mesmo é de contrariar mortais como eu. Um simples zás e lá se vão os animaizinhos...

Mamãe entregou-me os livros que eu tinha encomendado. Eu mesmo preparei uma lista pois se deixo por sua conta ela banca a censora. Acha que algumas leituras não fazem bem aos meus nervos. Dona Mercedes, dona Mercedes! Ela sim, tem nervos de aço. Quase. Se eu tivesse deixado os títulos ao seu encargo eu não teria o Matsuo Bashô agora em minhas mãos. Não é mesmo, mamãe? digo-lhe e ela sorri. Bashô não faz mal aos nervos de ninguém, Dona Mercedes sabia disso, ela tinha me oferecido, ela mesma, esse livro e agora vinha com essa conversa de nervos. Está pirada, dona Mercedes? Ela ri, me abraça e me assegura que não é bem assim, que essa idéia de censura não tinha partido dela. Ah! Eu devia ter adivinhado, e falando do diabo, lá vem ele caminhando lentamente. Seguro e altivo. Senhor Sérgio Novaes Carvalho Khoury, meu pai. Muito orgulhoso do Khoury que eu também carrego, claro, mas sem a mesma empáfia. Tento esconder o livro sob o banco mas o faço como um criminoso e tão atrapalhadamente que só consigo chamar mais a atenção para o objeto. Como vai, filho? Pergunta ele. Bem, e o senhor? Respondo. Mercedes, o que voce trouxe para ele? Seguiu a lista? Nós conversamos sobre isso, o médico concordou comigo, lembra-se?

Senhor Khoury não se conformava, o seu único varão ali, rodeado de alienados. Quando os clientes perguntavam pelo seu filho respondia que ele estava na Europa, participando de um intercâmbio cultural. E mamãe abaixava os olhos.

Mamãe, você trouxe o caderno que pedi? Perguntei-lhe. Aqui está, um belo caderno, lápis, canetas….Respondeu ela enquanto tirava tudo da bolsa. Para quê isso? Perguntou o velho Sérgio. Vou escrever sobre os meus companheiros de insanidade. Respondi. Que palhaçada é essa? Perguntou ele olhando para mamãe. Palhaçada nenhuma, ele disse aos outros que era escritor e agora eles querem que ele registre as suas histórias. Explicou muito naturalmente mamãe. E desde quando ele é escritor? Perguntou, enfezado, papai. Desde quando ele decidiu assim. Respondeu, sem mudar o tom, Dona Mercedes. Escute, a culpa é toda sua, eu não sei se já te disse isso com todas as letras, mas a culpa é sua. Disse-lhe papai. Sim, você já me disse isso com todas as letras…..

E papai vai embora pisando duro, como sempre.

Quando mamãe se vai, inicio o registro. Zoroastro será o primeiro porque o seu nome começa com Z. Zoroastro que é alto, forte, meio banguela, senta-se no tamborete na minha frente, ergue a cabeça e dita: Era uma vez, uma linda princesa, eu.